Deitada sobre lençóis finos, claros e frescos, via o céu pela janela. Mas, divagava muito além do azul infinito manchado de branco. Pensava em como cheguei até ali. Não exatamente ali, em minha cama, no meu quarto, deitada devaneando…mas, em como ‘eu’ era ‘eu’. E quantos pedaços de mim, havia deixado pelo caminho, e ainda estava ali, não inteira, mas sustentando-me sobre os pedaços que restavam.Acreditando, que estes ‘pedaços’ eram possivéis de se regenerar até que eu pudesse me sentir completa denovo. E se algo tivesse sido arrancado tão vorazmente que jamais se regenaria? Bem, viveria sem. E ele, era algo que eu pretendia viver sem, mesmo sentindo o vazio gritante que havia ali, dentro de mim. A cada dia, o pedaço de mim pertecente a ele, se tornava maior. Dia a dia, até que percebi que não tardaria e eu não me pertenceria mais, e tive medo. Fugi. Corri até ficar longe o bastante para não ser tocada. Mas, o que de mim ele tinha com ele, lá ficou. Então, pela primeira vez em muito tempo, fui forte a ponto de brigar com o destino. De impor minha vontade. Não quero, não posso, não preciso. ‘Vá, e cuide bem da parte de mim que está com você, caso queira devolver um dia.’ E ele foi. Não como eu esperava que fosse, jogando de volta tudo de mim que havia nele. Mas, foi assim, aos trancos, quase não indo. E não foi inteiramente. Continua perto o bastante para eu sentir, mas não para eu tocar. Para não me deixar esquecer. E eis que a resposta para o que eu sou, está aí. Na teimosia dele, em não ir. No pedaço faltante, preenchido por outro : saudade. E eis o que sou, aqui, deitada vendo as nuvens dançando: um poço de saudade.

 

 

“Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar
fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo
Queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir”

 

Melissa não estava feliz. Embora soubesse que tudo estava como ela imaginara que fosse. Sentia-se presa a um vazio terrível. Como se faltasse algo. Mas, em casa, no trabalho, nos estudos, tudo estava bem. Com Lucas, também, embora sentisse um certo distanciamento, e frieza em suas palavras, mas não prestou muita atenção. Talvez fosse apenas problemas no trabalho. Ela tentava decidir entre uma cidade e outra para fazer faculdade. Já tinha em mente o que queria, mas precisava de planos reservas. Estava entretida, calculando distâncias e custos e probabilidades, quando o celular tocou. Pela música escolhida como toque, já sabia quem era. Ele não havia ido para a aula, novamente. Isso a preocupava, mas como ele mesmo dizia, ela não tinha que se preocupar com isso.
-Melissa, preciso falar com você. Estou em frente a sua casa, vamos sair para caminhar um pouco. A lua está bonita.
Ela sentiu suas pernas amolecerem. Da última vez que ele disse sobre a lua, disse que aquela seria uma forma de saber que não ficariam tão distantes assim, afinal, a lua fazia parte do mesmo céu. Do nosso céu. E então, foi-se; e quase perdeu o caminho de volta, mas voltou. Talvez dessa vez, não encontrasse mais seu caminho…Era o que ela temia. Balbuciou um ‘estou indo’ e saiu.
Ele estava ali, com o olhar parado, distante. Ela sentiu um nó na garganta. Sabia o que aconteceria. Será que poderia pular o tempo, uns cinco ou seis meses, até a recuperação completa? Ou ela teria que passar por toda angústia da espera novamente? Uma espera que talvez nem acabasse…
-Lucas?
-Não vi que você já estava aí. Vê, que lua bonita. E solitária.
-Ela tem as estrelas. Em noites sem estrelas, ela não fica tão bonita…
-Tem razão… Venha aqui.
Ele passou os braços pelos ombros dela, e beijou-lhe a testa. Por dentro, ela queria correr, pra longe, longe bastante para não ter que ouvir-lo dizer que são melhores separados. Mas não ouviu nada. Caminharam por um tempo, em silêncio, até chegarem na praça onde se viram pela primeira vez. Havia mudado muito. Ambos eram pré-adolescentes que mal sabiam o que era amor, mas diziam se amar. Pra sempre. Há quatro anos atrás, acreditavam que isso era possível. Sentaram-se sobre o mesmo banco, onde o primeiro beijo, desajeitado e envergonhado aconteceu. Podia se ver a redoma nostálgica que os segregava do resto do mundo naquele momento. Ele segurou-lhe a mão, e a abraçou. Ela sentia-se completamente segura envolvida naquele abraço. Quase esqueceu-se que nos  próximos minutos, estaria em um provável abismo de recordações, e só recordações. Ele disse seu nome num sussurro quase inaudível, como se procurasse forças em algum lugar, para poder emitir qualquer som que fosse. Mas ela ouviu. E sentiu novamente uma guerra iniciando-se em seu interior. Guerra a qual, já estava perdida. Mas por amor as causas perdidas, não perdeu o último fio de esperança, fraco, quase invísivel, mas vivo.
-Melissa… eu não sei. Eu não quero te fazer mal. Mas, você tem sonhos maiores que eu. Eu me sinto sufocado por eles, como se não fizesse parte…
-Você faz parte da minha vida, automaticamente faz parte dos meus sonhos… É meio lógico isso.
-Não se trata de lógica, nem tudo na vida se resolve com lógica. Eu já lhe disse isso.
-Vá direto ao ponto.
-Conheci uma garota.
-O quê? Lucas, você só pode estar brincando.
-Não estou. Ela está na minha sala, e ultimamente estamos bem próximos.
-E você quer terminar comigo, com essa desculpa idiota que não cabe em meus sonhos. É por ela, não por mim.
-Sim. Você está certa.
-Eu…Eu vou embora. Passe em casa amanhã para pegar suas coisas.
-Eu te acompanho, está escuro.
-A lua não continua brilhando, mesmo sem estrelas por perto.
-Não com a mesma beleza.
-Adeus. Quero ir sozinha.
-Adeus, desculpa.
Ela seguiu. A dor que sentia não era comparavél a nada. Dos olhos, brotavam lágrimas grossas, que formavam sulcos por sua face. Sentia vontade de gritar. De correr. Fugir. Sumir. Arrancar a força tudo que lembrava ele. Ao chegar em casa, rasgou cartas e fotos. Apagou o número, o e-mail, e toda forma de contato.Escolheu a cidade mais longe para ir morar. Jogou-se na cama, odiando-se por não consiguir jogar fora o principal: o que sentia por ele.
Ele, ainda naquela praça, não se permitiu chorar. Era o melhor para ela. Ele não conseguiria alcança-la em seus planos. Sabia que desde que nascera, criara raízes e não queria que ela pagasse o preço de desistir de seus sonhos, por ele. Pensou em várias alternativas, mas nenhuma a convenceria. A saída foi inventar alguém. Sabia que abriria cicatrizes que deixariam marcas, mas era o melhor para ela. Chutou pedras pelo caminho, parou no primeiro botequim, e bebeu até amanhecer. Foi para casa, com o sol nascendo, e ao passar em frente a casa de Melissa, a viu saindo para o colégio. Olhos inchados, expressão melancólica.
Era o melhor. Repetiu para si mesmo. Era o melhor para ela.
Para ele, era a maior prova de que a amava. Para ela, era a maior prova de que tudo que viveram, não passou de mentiras.
Alguém precisava dizer. Colocar um ponto final de vez na história. Acabar de vez com as reticências. A história foi mal escrita desde o começo, mas a esperança sempre nos fez tentar acreditar que poderíamos concertar, ou aceitar a história em linhas tortuosas. Mas não pudemos. Entre retratos não tirados, dias não vividos, recordações tristemente bonitas dos vividos, manhãs, tardes e noites planejadas, sonhadas, imaginadas detalhadamente, nos perdemos. Eu te vi sorrir e não soube porque. E aquele sorriso, inspirando vitória me mostrou, o jogo estava perdido. E isso que fomos o tempo todo. Jogadores. Corações empedrados pela vida, que por um pequeno momento, amoleceram. E eis o empate. Mas, foi questão de tempo até você perceber o empate e querer ‘vencer’.Ou melhor, ditar o final, sair vitorioso. E venceu. E eis seu prêmio, não precisa dizer ‘adeus’ , eu já estou dizendo.

“Tentando ser o que eu não era mais
Eu me vi escondido em um mundo que você criou
E nunca mais voltou pra me libertar
E eu que não sei aonde chegar
Já caminhei tanto pra encontrar
E eu que não sei como te falar
Já escrevi tanto pra cantar
Mas se você não quiser ouvir
As canções já não me dizem mais nada”

ps: o outro post sumiu, bugs do WordPress.

Você chegou e me levou aos céus. E me deixou por lá, pisando em terrenos macios, mas nunca seguros. Eu caí. E foi então que percebi que prefiro terrenos árduos, mas seguros. Eu aceitaria caminhar perante pedras, espinhos e quaisquer obstáculos, se você segurasse minhas mãos, iria sorrindo. Mas, você foi.Nunca segurou-as. Perdeu-se por algum caminho, e eu tenho que seguir, sem você. Adeus.

Minha cabeça está rodando. Mal consigo pensar direito, mal tenho vontade de levantar-me e abrir a janela. Não sei se o sol apareceu hoje.Eu não sei o que espero. Nem sei se espero algo… Está tudo tão indigesto e insólito, que perdi completamente meu controle. Joguei o certo pela janela do sétimo andar. Destruí um castelo de concreto, que demorou anos para ser construído. Preferi meu castelo de cartas. Frágil, sempre pendendo para os lados, querendo cair. Seguro-o. Entro em equilíbrio, nem que para isso precise me desdobrar, pender, ameaçar desabar junto. Ele me segura. Não sei até quando, nem desde quando.E este castelo me faz querer ver o dia nascer. Está tudo fora do lugar. O errado ficou certo. Eu quero viver o errado, e minha cabeça continua rodando, buscando perguntas, respostas. Acumulam-se perguntas, há carência de respostas. Vou levando assim, enquanto as cartas estiverem na mesa

Arlequins são assim, donos de um encanto surpreendente, pobre Colombina que deixa-se levar, em uma vã ilusão de encontrar um amor de verdade. E o Pierrot, ali, espera a Colombina voltar da desilusão, de braços abertos, pronto para faze-la acreditar que seu amor é bem maior. Pobre Arlequim, não carrega nada além de mentira. Há de afogar-se nelas um dia. Pobres humanos, tão fracos, tão dependentes, tão dignos de piedade, quando se trata do tal do amor; que mal conhecem, que mal sentem verdadeiramente, e sofrem…

“E a sua sina é chorar a ilusão, em vão”

Dizem que seguir o coração é melhor caminho.
Mas o meu é burro.
Tão burro que mal consegue resistir a um belo leque de trechos hermanícos.

” De onde vem o jeito tão sem defeito
Que esse rapaz consegue fingir?”

(continua…)

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Nem todas canções vão dizer o que eu sinto
O que eu sinto por você
Mas a nossa história eu sei que é pra sempre
É só você lembrar

Quando a luz apagar
Eu vou encontrar o caminho pra nós dois
Se alguém te disser que eu não vou voltar
É só você lembrar.

 

[Parei com o blog. Um dia, eu volto.]

As coisas estão mudando – você me diz.

Mudando pra pior, eu penso comigo. Eu continuo guardado um lugar pra você, como se você estivesse ido logo ali, não demorasse e já voltasse. Mas, você foi embora e nem sabe mais o caminho de volta. Eu tento te mostrar, acendo as luzes, deixo as portas abertas, grito seu nome. Mas as luzes se apagam, as portas se fecham violentamente, e a minha voz é abafada por sua falta de vontade e esperança de reencontrar meu caminho.
E não há o que eu possa fazer, meu bem. As coisas estão mudando, e eu também estou perdendo as esperanças.

Me perdoa. Eu me rendo, eu desisto.

A confusão era visível em cada parte do meu corpo. Mesmo que ele fosse, conservaria-se aqui em mim de uma forma ou de outra, mas EU estar junto com ele, era algo totalmente fora de cogitação.Era só ele atravessar o portão de casa, que ele já esquecia-se de tudo. Sempre fora fácil assim pra ele, o que tornava tudo mais difícil pra mim. Eu só podia ter entendido errado. Ele só podia estar arrependido por ter quebrado sua promessa novamente, e por estar me vendo tomada pelo desespero, se sentindo culpado. E diga-se de passagem, com toda razão, a culpa era mesmo toda dele.
-Você enlouqueceu? -as palavras saíram impelidas, sem raciocinar, sem eu querer dizê-las.
-Não. Colabore, tente ao menos uma vez na vida não ser tão impulsiva. Ouça-me primeiro.
Impulsiva. Im-pul-si-va. As sílabas ecoavam na minha cabeça. Eu, que pensava mil vezes antes de falar. Que analisava todas as possibilidades com medo de errar e colocar tudo a perder. Tudo para não provocar cizânias, por mínima que fosse. Tudo pra não ser novamente a culpada, e ouvi-lo dizer que eu era a razão de ficarmos separados. Ou minhas tentativas eram falhas, ou ele não sabia o sentido dessa palavra. Pedi que ele prosseguisse a falar, tentado relevar o fato de ter sido chamada de algo que eu realmente me obrigava a não ser.
-Veja bem. É diferente, não sei como explicar. Eu te amo, e eu sei disso agora. -ele disse, medindo as palavras, como se explicasse a uma criança que seu cãozinho de estimação havia sido atropelado- e não quero te deixar.
-Você quer que eu deixe minha vida, e vá embora com você? –a rispidez se fazia visível até nos intervalos entre uma palavra e outra.
-Não quero que a deixe, quero que a viva comigo.Case comigo se quiser cumprir os bons costumes -ele disse, com aquele sorriso que me fazia sonhar acordada.
Havia algo errado. Papéis invertidos. Eu deveria estar pedindo que ele ficasse, e ele deveria estar dizendo que não poderia. Havia algo muito errado. Ou certo demais.
-Lucas, eu acabei de fazer 18 anos, e você mal passou dos 19.
-Eu não me vejo com outra pessoa além de você.
-Nem eu, mas…
-Mas o que Melissa?
-Eu não vou. Talvez seja melhor se seguíssemos nossas vidas separados, mesmo…
Eu estava terminando com ele. O que estava acontecendo? Minha voz estava firme, não estava falhada e perdida entre soluços. Meus pés não sentiam vontade de correr longe o bastane pra esquecer o caminho de volta.Isso era totalmente inimaginável. Encontrei os olhos dele, enquanto ele passava a mão pelo meu cabelo, colocando uma mecha que estava caída em meu rosto, atrás de minha orelha. Seu olhar estava confuso, mas havia tristeza ali, eu podia sentir.
-Depois de tudo que passamos, claro que você não confiaria em mim para tanto.
-É, acho que você está certo.
-Vou recuperar o que eu perdi.
-Talvez não seja mais possível.
-Você me ama?
-Sim.

-Eu só preciso disso para não desistir de você. Venha, vou te levar pra casa.
As primeiras gotas de chuva caíram sobre nós, ele retirou seu moletom e colocou sobre mim, e abraçados caminhamos pela chuva, em silêncio. Dali pra frente, era viver. E esperar.
(…)

-Moleque ridículo.
Respondi, virando as costas. As palavras saíram atiradas, letras que se fossem navalhas, atravessar-lhe-iam as vísceras arracando-lhe a vida, que honestamente, para mim, era enojante.Sabia que a raiva demoraria a cessar, e ele também sabia disso, ao não tentar impedir que eu batesse a porta ao sair.
Caminhei por horas, as lágrimas escorriam incessantemente pela minha face. Não eram de tristeza, não eram de frustração ou decepção. Eram de raiva.O ódio que me consumia naquele momento, cegava meus olhos, bloqueava as lembranças boas que talvez me ajudariam a diminuir a intensidade do rancor que havia me acertado em cheio.
Estava machucada. Por dentro. As feridas gritavam abertas ao relento, queimavam.
Já estava escurecendo, e meu celular tocou pela primeira vez após algumas horas, que eu não tenho idéia de quantas foram. Aquele maldito nome na tela, aquela maldita música que me fazia ter certeza de quem estava chamando. Atirei o celular ao longe, sabendo que me arrependeria depois, e saí correndo pra pegar. Estava em pedaços, assim como eu. Permaneci ali, imóvel, inteiramente despedaçada, como se esperasse que um milagre igual aos  de romances clichês viesse me salvar.
“Sabia que você estaria aqui. Levanta daí, amor.”
-tremi ao ouvir a voz aveludada, apreensiva, de Lucas.
“Some. Me deixa”, respondi, com a voz mais dura que consegui simular.
“Para. Vamos ver se você consegue entender. Eu vou embora, isso é fato…”
Essa era a fatídica frase que havia começado a discussão mais calorosa que tivemos, em 4 anos que estivemos supostamente juntos.
“Pois vá. Vá, como todas as vezes. Arrume outra namorada, seja feliz por 15 dias. Aproveite as festas que ela vai gostar de ir, beba, repita o semestre na faculdade. Volte frustrado e me procure. Só não pense que dessa vez eu estarei aqui, pois estou indo também.” As palavras saíam falhadas, entre a respiração acelerada pelo ritmo cardíaco extremamente acelerado também, eu quase podia sentir meu coração estourando meu peito. Os olhos deles me encaravam, sem paciência, sua expressão era de profundo desapontamento, e eu não entendia a razão. Afinal, ele que prometera há dois meses atras, que ficaria aqui dessa vez. Ele me dera sua palavra.
“Será que eu posso falar, ou você vai continuar me acusando, me ofendendo, achando-se a dona da verdade?”
Senti vontade de enforca-lo, ao responder, com todo sacrifício, que ele tinha 5 minutos até eu ir pra casa e botar fogo em tudo que me lembrava ele, e nele também, se ele tentasse me impedir.
Ele suspirou, como se buscasse forças em alguma coisa. Segurou minhas mãos, fechou os olhos por alguns segundos,enquanto esperava que minhas mãos parassem de tremer,e finalmente disse : “Vem comigo, Melissa.”

(…)

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