Ela estava ali apoiada no balcão, esperando seu drink. Já devia ser o quinto, ou sexto copo, quando sentiu alguém tocar seus ombros, e descer sutilmente pelo seu braço até segurar firme sua mão. Ela se assustou, mas se acalmou ao conhecer quem fazia isso. Ele a cumprimentou com um beijo na face e um abraço apertado, e sem soltar-lhe a mão, disse:
-Quanto tempo que eu não te via! Não sabia que gostava daqui…
-Tempo demais… É a primeira vez que venho, e última! – disse ela, sorrindo, descontraída pelo efeito dos drinks.
Ele riu, e passou a mão sobre o cabelo dela, olhou-a por um segundo, e logo desviou o olhar, e colocou as mãos no bolso, tenso, quando o drink dela chegou.
-Parece que você já ultrapassou seu limite de bebidas hoje, não é? -perguntou ele, vendo que os olhos dela já começavam a parecer fora de foco, e ela estava mais alegre que o normal. “Seria o tempo, ou os drinks”, ele se perguntou.
-Imagine, estou completamente bem. Essa música me deixa pior que os drinks! Estarei com os ouvidos zunindo quando acordar! -gritou ela, tentando contrastar que o som da boate.
-E com uma baita dor de cabeça, se não parar de beber. Vamos lá pra fora?
-Ah, já tentei escapar um pouco daqui, mas parece-me que por lá só tem casais…
-Não deixamos de ser um, não é?
-Fomos um dia…-ela disse, e virou o copo que acabara de pegar.
- Hey, traz outro desses pra mim, por favor? -disse ela, ao barman.
-Não, não traz não.- disse ele, segurando-a pela cintura, e levando-a em direção ao ambiente mais tranqüilo da boate.
Eles se sentaram em um local afastado do tumulto, e a conversa sem brigas, sem cobranças, as típicas conversas de anos atrás não se faziam mais presentes ali, cedendo lugar a agora, aquela conversa distraída e amigavelmente afável, que preenchia o silêncio.
-E então, vai bancar a minha babá? -disse ela, ironicamente.
-Lembro que você sóbria não era muito confiável, não quero te imaginar com algumas na cabeça.
-Você ainda adora me chamar de louca. Você é repugnante.
Ele soltou uma gargalhada que a fez baixar a guarda, e entregar-se a situação cômica que os dois criaram ali.
-Você não perde a oportunidade de me ofender. Só não me ofendo porque sei que fala da boca pra fora, e não está em seu estado normal -disse ele, ainda esfregando os olhos, após o ataque de risos.
-Estou perfeitamente bem…Não seja tolo. Quero pegar outro drink, está quente por aqui.
-O último… Fique aqui, eu busco pra você. Vou pegar algo fraco, ok?
-Pegue uns 3, então.
Ele riu, e se afastou.
Ela ficou lá, por uns 10 minutos esperando por ele, e durante esse tempo um filme passou pela sua cabeça, desde o primeiro momento que se olharam, até a última briga infantil que tiveram, há alguns anos atrás, que os distanciou de tal forma que um olhas causava aversão.O que ocorrera naquele tempo, que parece ter apagado as mágoas do passado? Nesse momento, ele apareceu, sorrindo, com 3 latas de Coca-Cola.Ela não pode deixar de rir.
-Veja, eu trouxe 3! – disse ele, rindo.
-Continua o mesmo bobo de sempre…
-Qual você quer, ligth, zero ou normal?
-Normal…Sorte sua que adoro esse líquido triturador de ossos!
E eles ficaram ali, por algumas horas, conversando sobre tudo, rindo como dois amigos que não se encontravam há tempos com zilhões de histórias tragicamente engraçadas para contar e relembrar.Depois da formatura, eles nunca mais se viram, e agora, 3 anos depois, se encontraram naquela boate. A música parou, e eles se deram conta que havia pouquíssimas pessoas por ali.
-Vamos, então? – disse ela.
-Acho que perdi minha carona, tenho uma longa caminhada pela frente.
-Espero que minhas amigas tenham me esperad…Que cara é essa?A última vez que você fez essa cara foi quando quebrou o botão do meu mp3!
-Foi sem querer daquela vez. Bem, quando fui comprar a sua ‘bebida’ encontrei com aquela sua amiga,a loira. Eu disse que você estava comigo, e elas podiam ir sem você, pois eu te levaria embora.
-Não acredito que você fez isso! Ótimo, são 5 da manhã, e vamos ter que ir embora a pé.Vamos ver se eu consigo um táxi…Do que você está rindo agora?
-Querida, não temos mais nossos 16, 17 anos.
Ele pegou a mão dela, e a levou para fora. Apontou o gol preto, parado na terceira fila do estacionamento, e retirou as chaves do bolso.
-Você ainda brinca de carrinho? Esse é dos grandes, hein. – disse ela, ironicamente.
-Engraçadinha! Vamos lá, eu te levo.
-Não tenho certeza se confio em você no volante…
-Orgulhosa como sempre…Quer ir a pé?
Ela riu, e ele sentiu como se aquele sorriso o esmagasse por dentro, e viu que o tempo não mudara nada entre os dois quando a abraçou, e ela manteve as mãos nos bolsos, sentindo a mesma coisa, o silêncio instalou-se entre os dois.
-Você ainda mora no mesmo lugar?
-Estou lá ainda. Mas não moro mais aqui, estou de férias da faculdade. Ligue o rádio, por favor, não suporto este silêncio. -disse ela.
E seguiu-se por todo o caminho, como se estivessem numa competição por algo inestimável, em que o vencedor seria quem se mostrasse mais indiferente,até chegarem na casa dela.
-Obrigada pela carona…Bem, agente se vê. Você está morando aqui? -perguntou ela.
-Vim passar as férias também. Agente se vê, mesmo?
-Não sei.
-Continua a mesma medrosa.
-O medroso sempre foi você.
-E agora, somos os dois.
-Tudo bem…Que tal uma pizza amanhã?
-Com quantas Coca-colas você quiser!
Os dois riram, e se olharam por longos minutos, até que ele passou a mão pelo rosto dela, e ela sentiu o coração acelerar, quando os lábios finalmente se encontraram. O beijo parecia poder durar a eternidade, já que esperaram tanto tempo para se encontrarem novamente, depois de tanto tempo…depois de tudo que viveram. Finalmente ela acreditava, que um dia tudo poderia dar certo, pelo menos até a próxima despedida…