E num lampejo, como se um vulto futurístico abarcasses a janela de teu quarto enquanto tu estás em estado vegetativo olhando para o nada, tudo muda. Então te levantas e queres gritar. Gritar ao mundo que aquilo ali não é o teu lugar. Então vais. Andas em torno de ti, em torno de praças e lugares desconhecidos e dá voltas e voltas, e volta. Não sabes o que realmente queres, e novamente aquele lampejo te acerta em cheio. Não sabes para onde voltar, já abandonastes o que eras. E então, clama por outro lampejo, que te cegues, mas que mostres o caminho. Mas tudo que vês é alguém esperando por ti do outro lado da rua. Segue até ele, que segura tua mão e diz ‘vem comigo’. E por um instante toda a calma que sempre procuraras te atinge e te dopa, faz-te perder os sentidos e toda a lógica. Não respondes nada, não consegue. Apenas vai, e sentes que está no caminho certo. Vais, e perdes o caminho de volta propositalmente. Vai, e prometes voltar, sabendo que esta promessa já está quebrada. Vais encontrar o que sempre buscou, um motivo para recomeçar, um motivo para se encontrar, um motivo para acreditar. E encontra. E se encontra. E não perdes mais, e não voltas mais.

O que mais falta acontecer esse ano? Eu me pergunto se é alguma força oculta agindo contra o universo, querendo esmagar toda e qualquer florescencia de esperança que tenta inultimente ganhar forças entre galhos de um inferno verde-musgo-quase-negro. Um fiozinho verde-límpido-brilhante que é apagado,triturado, engolido por entre os galhos. Deprezado, como se fosse uma praga. Eu sinto algo me sufocando, algo que retira todas as minhas forças. É a falta de esperança que me deixa estáticamente confusa. Como se mãos invisiveis infincassem adagas em meu interior, e eu fosse incapaz de arranca-las, e simplesmente me ferisse ainda mais nas tentativas. Sinto me um peixe fora d’agua, que mesmo quando encontra o aquário, quase se afoga. Desaprendi a acreditar. A confiar. Eu vejo o mundo caminhar para o caos, pandemias, destruição, assassinatos diários físicos e morais dos mais cruéis e desumanos possíveis. Eu vejo meu futuro na mão de quem não se importa com nada além de sua conta bancarária corrupta. Eu sinto raiva. Sinto vergonha. Eu me pergunto, até quando essa situação deplorável vai continuar impune, e dentre tantas perguntas sem resposta, essa faz questão de gritar, soletrar, pixar em todos os muros, estampar nas manchetes do jornais: pra sempre e mais um dia. Dentre despedidas e reencontros, mal entendidos, decepções, pandemias, adiamentos, nepotismos, inconformismos, traições, embriaguez, descobertas, indas, vindas, não há mais nada que me surpreenda. Se eu cair ainda mais, vou ser soterrada, e não volto mais. Então me diz, senhor 2009, que mais você tem pra mim?

Deitada sobre lençóis finos, claros e frescos, via o céu pela janela. Mas, divagava muito além do azul infinito manchado de branco. Pensava em como cheguei até ali. Não exatamente ali, em minha cama, no meu quarto, deitada devaneando…mas, em como ‘eu’ era ‘eu’. E quantos pedaços de mim, havia deixado pelo caminho, e ainda estava ali, não inteira, mas sustentando-me sobre os pedaços que restavam.Acreditando, que estes ‘pedaços’ eram possivéis de se regenerar até que eu pudesse me sentir completa denovo. E se algo tivesse sido arrancado tão vorazmente que jamais se regenaria? Bem, viveria sem. E ele, era algo que eu pretendia viver sem, mesmo sentindo o vazio gritante que havia ali, dentro de mim. A cada dia, o pedaço de mim pertecente a ele, se tornava maior. Dia a dia, até que percebi que não tardaria e eu não me pertenceria mais, e tive medo. Fugi. Corri até ficar longe o bastante para não ser tocada. Mas, o que de mim ele tinha com ele, lá ficou. Então, pela primeira vez em muito tempo, fui forte a ponto de brigar com o destino. De impor minha vontade. Não quero, não posso, não preciso. ‘Vá, e cuide bem da parte de mim que está com você, caso queira devolver um dia.’ E ele foi. Não como eu esperava que fosse, jogando de volta tudo de mim que havia nele. Mas, foi assim, aos trancos, quase não indo. E não foi inteiramente. Continua perto o bastante para eu sentir, mas não para eu tocar. Para não me deixar esquecer. E eis que a resposta para o que eu sou, está aí. Na teimosia dele, em não ir. No pedaço faltante, preenchido por outro : saudade. E eis o que sou, aqui, deitada vendo as nuvens dançando: um poço de saudade.

 

 

“Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar
fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo
Queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir”

 

Melissa não estava feliz. Embora soubesse que tudo estava como ela imaginara que fosse. Sentia-se presa a um vazio terrível. Como se faltasse algo. Mas, em casa, no trabalho, nos estudos, tudo estava bem. Com Lucas, também, embora sentisse um certo distanciamento, e frieza em suas palavras, mas não prestou muita atenção. Talvez fosse apenas problemas no trabalho. Ela tentava decidir entre uma cidade e outra para fazer faculdade. Já tinha em mente o que queria, mas precisava de planos reservas. Estava entretida, calculando distâncias e custos e probabilidades, quando o celular tocou. Pela música escolhida como toque, já sabia quem era. Ele não havia ido para a aula, novamente. Isso a preocupava, mas como ele mesmo dizia, ela não tinha que se preocupar com isso.
-Melissa, preciso falar com você. Estou em frente a sua casa, vamos sair para caminhar um pouco. A lua está bonita.
Ela sentiu suas pernas amolecerem. Da última vez que ele disse sobre a lua, disse que aquela seria uma forma de saber que não ficariam tão distantes assim, afinal, a lua fazia parte do mesmo céu. Do nosso céu. E então, foi-se; e quase perdeu o caminho de volta, mas voltou. Talvez dessa vez, não encontrasse mais seu caminho…Era o que ela temia. Balbuciou um ‘estou indo’ e saiu.
Ele estava ali, com o olhar parado, distante. Ela sentiu um nó na garganta. Sabia o que aconteceria. Será que poderia pular o tempo, uns cinco ou seis meses, até a recuperação completa? Ou ela teria que passar por toda angústia da espera novamente? Uma espera que talvez nem acabasse…
-Lucas?
-Não vi que você já estava aí. Vê, que lua bonita. E solitária.
-Ela tem as estrelas. Em noites sem estrelas, ela não fica tão bonita…
-Tem razão… Venha aqui.
Ele passou os braços pelos ombros dela, e beijou-lhe a testa. Por dentro, ela queria correr, pra longe, longe bastante para não ter que ouvir-lo dizer que são melhores separados. Mas não ouviu nada. Caminharam por um tempo, em silêncio, até chegarem na praça onde se viram pela primeira vez. Havia mudado muito. Ambos eram pré-adolescentes que mal sabiam o que era amor, mas diziam se amar. Pra sempre. Há quatro anos atrás, acreditavam que isso era possível. Sentaram-se sobre o mesmo banco, onde o primeiro beijo, desajeitado e envergonhado aconteceu. Podia se ver a redoma nostálgica que os segregava do resto do mundo naquele momento. Ele segurou-lhe a mão, e a abraçou. Ela sentia-se completamente segura envolvida naquele abraço. Quase esqueceu-se que nos  próximos minutos, estaria em um provável abismo de recordações, e só recordações. Ele disse seu nome num sussurro quase inaudível, como se procurasse forças em algum lugar, para poder emitir qualquer som que fosse. Mas ela ouviu. E sentiu novamente uma guerra iniciando-se em seu interior. Guerra a qual, já estava perdida. Mas por amor as causas perdidas, não perdeu o último fio de esperança, fraco, quase invísivel, mas vivo.
-Melissa… eu não sei. Eu não quero te fazer mal. Mas, você tem sonhos maiores que eu. Eu me sinto sufocado por eles, como se não fizesse parte…
-Você faz parte da minha vida, automaticamente faz parte dos meus sonhos… É meio lógico isso.
-Não se trata de lógica, nem tudo na vida se resolve com lógica. Eu já lhe disse isso.
-Vá direto ao ponto.
-Conheci uma garota.
-O quê? Lucas, você só pode estar brincando.
-Não estou. Ela está na minha sala, e ultimamente estamos bem próximos.
-E você quer terminar comigo, com essa desculpa idiota que não cabe em meus sonhos. É por ela, não por mim.
-Sim. Você está certa.
-Eu…Eu vou embora. Passe em casa amanhã para pegar suas coisas.
-Eu te acompanho, está escuro.
-A lua não continua brilhando, mesmo sem estrelas por perto.
-Não com a mesma beleza.
-Adeus. Quero ir sozinha.
-Adeus, desculpa.
Ela seguiu. A dor que sentia não era comparavél a nada. Dos olhos, brotavam lágrimas grossas, que formavam sulcos por sua face. Sentia vontade de gritar. De correr. Fugir. Sumir. Arrancar a força tudo que lembrava ele. Ao chegar em casa, rasgou cartas e fotos. Apagou o número, o e-mail, e toda forma de contato.Escolheu a cidade mais longe para ir morar. Jogou-se na cama, odiando-se por não consiguir jogar fora o principal: o que sentia por ele.
Ele, ainda naquela praça, não se permitiu chorar. Era o melhor para ela. Ele não conseguiria alcança-la em seus planos. Sabia que desde que nascera, criara raízes e não queria que ela pagasse o preço de desistir de seus sonhos, por ele. Pensou em várias alternativas, mas nenhuma a convenceria. A saída foi inventar alguém. Sabia que abriria cicatrizes que deixariam marcas, mas era o melhor para ela. Chutou pedras pelo caminho, parou no primeiro botequim, e bebeu até amanhecer. Foi para casa, com o sol nascendo, e ao passar em frente a casa de Melissa, a viu saindo para o colégio. Olhos inchados, expressão melancólica.
Era o melhor. Repetiu para si mesmo. Era o melhor para ela.
Para ele, era a maior prova de que a amava. Para ela, era a maior prova de que tudo que viveram, não passou de mentiras.
Alguém precisava dizer. Colocar um ponto final de vez na história. Acabar de vez com as reticências. A história foi mal escrita desde o começo, mas a esperança sempre nos fez tentar acreditar que poderíamos concertar, ou aceitar a história em linhas tortuosas. Mas não pudemos. Entre retratos não tirados, dias não vividos, recordações tristemente bonitas dos vividos, manhãs, tardes e noites planejadas, sonhadas, imaginadas detalhadamente, nos perdemos. Eu te vi sorrir e não soube porque. E aquele sorriso, inspirando vitória me mostrou, o jogo estava perdido. E isso que fomos o tempo todo. Jogadores. Corações empedrados pela vida, que por um pequeno momento, amoleceram. E eis o empate. Mas, foi questão de tempo até você perceber o empate e querer ‘vencer’.Ou melhor, ditar o final, sair vitorioso. E venceu. E eis seu prêmio, não precisa dizer ‘adeus’ , eu já estou dizendo.

“Tentando ser o que eu não era mais
Eu me vi escondido em um mundo que você criou
E nunca mais voltou pra me libertar
E eu que não sei aonde chegar
Já caminhei tanto pra encontrar
E eu que não sei como te falar
Já escrevi tanto pra cantar
Mas se você não quiser ouvir
As canções já não me dizem mais nada”

ps: o outro post sumiu, bugs do WordPress.

Você chegou e me levou aos céus. E me deixou por lá, pisando em terrenos macios, mas nunca seguros. Eu caí. E foi então que percebi que prefiro terrenos árduos, mas seguros. Eu aceitaria caminhar perante pedras, espinhos e quaisquer obstáculos, se você segurasse minhas mãos, iria sorrindo. Mas, você foi.Nunca segurou-as. Perdeu-se por algum caminho, e eu tenho que seguir, sem você. Adeus.

Minha cabeça está rodando. Mal consigo pensar direito, mal tenho vontade de levantar-me e abrir a janela. Não sei se o sol apareceu hoje.Eu não sei o que espero. Nem sei se espero algo… Está tudo tão indigesto e insólito, que perdi completamente meu controle. Joguei o certo pela janela do sétimo andar. Destruí um castelo de concreto, que demorou anos para ser construído. Preferi meu castelo de cartas. Frágil, sempre pendendo para os lados, querendo cair. Seguro-o. Entro em equilíbrio, nem que para isso precise me desdobrar, pender, ameaçar desabar junto. Ele me segura. Não sei até quando, nem desde quando.E este castelo me faz querer ver o dia nascer. Está tudo fora do lugar. O errado ficou certo. Eu quero viver o errado, e minha cabeça continua rodando, buscando perguntas, respostas. Acumulam-se perguntas, há carência de respostas. Vou levando assim, enquanto as cartas estiverem na mesa

Arlequins são assim, donos de um encanto surpreendente, pobre Colombina que deixa-se levar, em uma vã ilusão de encontrar um amor de verdade. E o Pierrot, ali, espera a Colombina voltar da desilusão, de braços abertos, pronto para faze-la acreditar que seu amor é bem maior. Pobre Arlequim, não carrega nada além de mentira. Há de afogar-se nelas um dia. Pobres humanos, tão fracos, tão dependentes, tão dignos de piedade, quando se trata do tal do amor; que mal conhecem, que mal sentem verdadeiramente, e sofrem…

“E a sua sina é chorar a ilusão, em vão”