junho 2008


‘Muda que quando agente muda, o mundo muda também’

Ouvi esta frase certa vez, e assim que terminei, um sorriso irônico alastrou-se pelo meu rosto. Mudanças geram mudanças? É claro. Mas não são mudanças naturais, como esta que está ocorrendo, gritante em meu interior, são mudanças forjadas, uma forma utópica de se ver o mundo. Eu posso sair dizendo que tudo vai melhorar, que a vida é bela, que tudo está perfeito, e que eu não sinto mais a tua falta, por esses dias frios. Seria sim, uma mudança drástica. Apenas nas minhas frases. Interiormente, eu sei o que está acontecendo realmente. Convenhamos, a vida não é nada fácil de se viver, entre altos e baixos tão abomináveis que mal se erguem novamente.Tudo só se agrava, sejamos realistas, por favor. Ah, sim. Eu sinto sua falta, mas só percebi esta semana o quanto é forte isto que apareceu por aqui, de enxerido, pois odeio me sentir sentindo sua falta. Principalmente se for por algo que até poucos dias, não me fazia qualquer diferença, ou pelo menos eu pensava assim. Há tempos confio na teoria do valor derramado, quando se perde alguém. Quando se tem certeza que algo é infindável, simplesmente abandonamos, fazendo uso pelo nosso bel-prazer, e isso nunca muda, por mais que mudemos.Olhei para você um dia desses, e vi que te queria do meu lado, e o quanto você me fazia bem quando estava por aqui.E neste dia vi que você não queria mais estar ali. Dizem que o amor é para se fazer bem. O meu, só me fez pior. Optei por demitir-me desse tal amor. Escolho, apenas gostar. E eu gosto de você. Gosto muito por sinal, embora eu saiba que você ache que eu sou alienada, complicada, irritante e dúbia demais. E esta é a maior mudança em mim, assumir que eu gosto sim, de você. Você foi um dos poucos que riu das minhas crises de temperamentalismo, e que continuou ali me abraçando e dizendo ‘Calma, isto vai passar, eu posso te ajudar?’. Gostava das suas brincadeiras bobas, que tanto me irritavam.Gostava do fato de estar com você, e rir das coisas bobas e bonitas que você tentava dizer, para tentar mudar meu mal-humor, ou apenas para me agradar. Soavam-me tão sinceras…Sinto falta de ouvir todas aquelas frases desconexas. Quando te disse que eu gostava de ficar sozinha, não era tão verdade assim. Gosto, até. Mas prefiro estar sozinha, com você do meu lado, para me convencer que você vai ficar ali, mesmo eu sendo a chata inconformada de sempre. Meu garoto, quero só te dizer, que eu gosto de você. E te queria aqui, você era meu abrigo, um lugar que eu poderia ir quando eu quisesse, como eu quisesse, que sempre seria recebida com toda alegria e paciência que você fosse capaz de oferecer. Será que você consegue entender, que isto tudo que disse foi pra você entender a falta que você me faz? Vem pra cá, me abrace e abra seu sorriso,para mim. Quando eu disser que quero ir embora, não deixe, por favor, eu preciso de você. Eu quero que você mude, junto comigo. Quero teu olhar mais feliz, e quero que seu sorriso volte a ser o mais bonito, e suas palavras tão gostosas de ouvir, tornem-se comuns nos meus dias. Quero que cantes, aquela música para mim. Vou bagunçar teu cabelo e ver você se irritar, quando digo algo que te provoque ciúmes. Ah, meu menino, eu gosto tanto de você, não me deixe te amar, por favor.

Quando dei por mim, estava ali. Você olhando ao longe, como se algo assombroso estivesse acontecendo.Eu estava li, ao lado de alguém cujo beijo não me fazia sentir um décimo do que sinto quando você me olha.Lembro dos dias que passamos juntos, e procuro saber como foi que você foi capaz de tamanha mudança. Impossível de saber, como tudo isso aconteceu. Peço-lhe, por favor, não me olhe, não fale comigo. Mantenha-se distante. Eu odeio o fato de não saber não lembrar de nós dois. Vá, afasta-se para sempre. Deixa-me viver, em paz. Já sou sujeitada a aturar a agonia de te ver em outros abraços, não me faça ver que você não está feliz assim.Cansei de te pedir para confiar quando digo te amar, cansei de implorar que volte aqui, e esqueça tudo que passou, e cansei de te ouvir dizer que eu sou a culpada por tudo. Peço-lhe somente, afaste-se de mim, e saibas que o culpado é você.

Ela estava ali parada, ainda enlevada com o que acabara de ouvir. Ele já estava longe, já estava de volta aos braços daquela que tanto o amava, e ele simulava amar. Ela mal conseguia se conter. Queria gritar, correr pra longe dali, fugir daquele quadro tão mal pintado, que era aquele casal.Mas não se moveu, ficou ali parada vendo os dois, pensando no quanto era díspar quanto ocupada um lugar naquele quadro, e percebeu que não fazia mais parte dele. Não depois do que ele lhe dissera. Foi como algo delineado, medido friamente para fazê-la se desesperar. Mas ela não o fez. Aquelas frases carregadas de ironia, e tentativas de culpá-la por tudo, não a atingiram. Os ‘você escolheu assim’,não a fizeram chorar e implorar que ele lhe ouvisse que ela não queria assim, como de costume. Ela apenas acenou com a cabeça, ouviu pacientemente e esperou torturantemente que ele terminasse seu discurso. Quando isso aconteceu, ela levantou os olhos que encaravam o chão tão firme, mas que parecia uma enorme bolha de ar, o encarou e apenas perguntou, se ele havia terminado. Ele se preparou para ouvir gritos, xingamentos, explicações, ver lágrimas escorrerem por toda a face dela, quando pontuou seu sim. E ambos surpreenderam-se quando ela disse que não queria falar sobre isso, que estava cansada, e enconstou-se em um pilar. Ele saiu, e foi ao encontro da garota que o procurava.Ela não tinha disposição para lutar por ele, ela não queria disputar algo que deveria ser naturalmente seu.Estava cansada de tentar, e tentar e tentar e acreditar que aquele olhar poderia significar mais do que uma afronta. Suspirou melancolicamente, deixou uma lágrima escapar longe dos olhos de todos, e prometeu que aquela seria a última…

(…)
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
(…)

Vínicius de Moraes.

Oi, será que podemos conversar um pouco?Sente-se aqui do me lado, juro que é só por um momento. Almejo lhe dar um abraço, não precisa ser tão apertado, se você não quiser muita proximidade, é só sentir um pouco de nós dois. São só alguns instantes, só queria te contar como minha vida anda desvairada, maluca. E de como você influencia para que seja assim. Posso segurar tua mão para evitar que você subitamente tente impedir alguma lágrima teimosa que insista em querer resvalar quando começo a discorrer nos porquês, e continuar segurando-a, procurando inconscientemente prevenir que você vá para longe, outra vez? É que queria te descrever, como é ver todas as manhãs você com ela, como é invejar amargamente querer estar no lugar dela. Dizer-te que não é nada simples, não tem sido fácil fingir estar sempre tudo bem, quando topo com vocês dois descendo as escadas, ou detidos nos mesmos lugares que costumávamos ficar. E pior, é tentar te persuadir que eu estou impecavelmente bem, e ver você acreditar, e se irritar quando finjo estar bem em outro abraço. É triste e detestável ver como complicamos as coisas…E um dia, talvez eu diga isto para você, por em quase sempre deixa estar, mas o abraço eu ainda faço questão de ter, se você fechar os olhos, e esquecer por um segundo de toda incoerencia que nos cerca…

Quando nos indagam se somos irmãs, gracejamos e dizemos que não, somos primas, separadas na maternidade, amigas, cada vez respondemos de uma forma diferente. Nos comparam apenas pela cor clara dos olhos, o médio tom dos cabelos e talvez agora, pelo comprimento também. E os uniformes, claro. Verdes, e azuis. Verde assentando-se com os meus olhos, e azuis com os seus. Não somos irmãs de mesma progênie, mas vivemos praticamente o dia todo juntas. Já despejamos rios de lágrimas, tanto por falhas quanto por acertos. Nos orgulhamos uma da outra, comemoramos quando algo dá certo, sentimos raiva quando algo dá errado, seja com uma só, ou com as duas simultaneamente, o que convenhamos, é muito prosaico acontecer. Mas não nos comparam em relação a estas semelhanças, pois dessas apenas nós duas sabemos, e entendemos tão bem.Eu a ensinei a ouvir músicas melancólicas, ela me ensinou a ser menos sentimental. Ela me mostrou que o mundo dá voltas, e secou minhas lágrimas enquanto as dela estavam na porta dos olhos tão azuis que quando úmidos, lembram mares límpidos, pacato. Aparência.Por trás deste mar azul, visivelmente tão sereno, existe uma adolescente que tenta não se deixar derrotar pelas dificuldades da existência, e ainda encontra forças para tentar reascender um sorriso, no face de quem ela estima. Mas, quando o golpe é muito forte, se fecha. Odeio quando ela faz isso. Não sei o que está acontecendo, e ela não diz. Quando isso acontece, somente o tempo é capaz de fazê-la voltar ao normal. Personalidade alentada, que não gosta de erros cometidos em mais de uma ocasião. Não gosta, mas não consegue impedir. Nisto, também somos muito similares. As horas no celular, os intermináveis bilhetes durante a aula, as manhãs e tardes gastas desabafando, aconselhando, comentando, rindo ou chorando, são comuns para nós duas. Temos o mesmo sonho de ir embora, ir pra nossa faculdade, morar na mesma república, deixar tudo para trás. Recomeçar. Hoje, é aniversário dela. Amanhã, é o meu. Hoje, digo para ela, um milésimo do que gostaria. Agradeço a ela, um milésimo do que ela merece. Gabrielle, Bob. Eu te amo, minha amiga- irmã. Sei, não posso te prometer que todos nossos sonhos vão ser reais. Pode ser que tomemos caminhos distintos a partir do próximo ano. (Já parou pra pensar, que falta pouco, agora?), mas saiba que por mais tempo que fiquemos separadas, um dia agente se vê de novo, apenas para lembrar o quanto era bom, até mesmo quando chorávamos ou brigávamos, o quanto era tudo tão bom, apenas pela razão de estarmos juntas, e perceber que o que uma sentia, a outra entendia muito bem, por ter sentido na própria pele. Parabéns minha amiga, não posso te dar toda a felicidade e força que você precisa, mas posso te desejar, de todo o coração que você seja sempre capaz de se superar, e ser mais feliz, menos vulnerável as decepções e ilusões, a cada dia que passe. Eu te amo, muito.