janeiro 2009


“Vai ficar tudo bem. Olha para mim, prometa que você vai ficar bem” -dizia Lucas, ao ver os olhos vermelhos de Melissa ao despedir-se dela. Mas tudo que ela sentia, era uma vontade incontrolável de implorar que ele não fosse. Ela precisava dele por perto, ele não sabia, mas ele era seu alicerce, era ele quem a sustentava em pé quando ela não descobria audácia pra tanto. Claro, que ela nunca disse isso a ele, e nem poderia. Ele apenas diria que era exagero, e iria rir. Melissa o via com olhos diferentes que ele a via. Ela o via como alguém que poderia envelhecer ao seu lado, ele a via como alguém que o apareceria, às vezes, para relembrarem como fora a mocidade. Eles se gostavam. Ela muito mais que ele e de uma maneira muito mais visível. Mas ambos sabiam que não demoraria muito, cada um seguiria sua vida. Melissa pensava nisso todas as noites em que não conseguia dormir, pensava no dia em que não veria mais aquele sorriso, que não teria mais aquele abraço, que não ouviria mais aquelas palavras docemente tímidas. Pois ali, naquele momento, despedia-se de tudo, contra sua vontade. Não disse adeus, não disse uma palavra. Olhava para ele, que falava, e falava e falava… Aturdido, não entendia por que ela chorava, afinal, continuariam se falando, continuariam sendo amigos. Encontrariam outras pessoas. Ele namoraria outras garotas, ela encontraria um bom rapaz, por que é que ela ainda insistia em permanecer calada, mostrando apenas nos seus olhos verde-água, a angústia que vestia seu interior? Ele continuava a falar, tentando encontrar uma maneira de fazê-la responder, reagir. Mas nada que ele falava, a fazia responder. Eram apenas sinais com a cabeça, ora positivos, ora negativos ou indiferentes. “Está sendo infantil”, disse ele, repetidas vezes. E viu aqueles olhos marejados, e aqueles traços que ele jamais prestara tanta atenção como naquele momento, perpetuarem se em sua memória. Sentiu um nó na garganta, abraçou a, erguendo-a alguns centímetros do chão. Ela não estava sendo infantil, ela o amava e ele nunca soube perceber isso, ela também nunca disse, com todas as palavras, nunca havia lhe dito aquelas 3 palavras. Mas ele sabia, ele sentiu naquele abraço, naqueles olhos. Então, o abraço se desfez, e ele a beijou. Melissa permaneceu em silêncio, mesmo após o beijo. Pensava que aquele beijo, fora uma maneira de ele fazê-la reagir, fazê-la responder. Ele se mostrava cada vez mais confuso, e então a ouviu dizer, quase que com um sussurro ‘vou indo, boa sorte, me liga se lembrar’. Ele então a segurou, e naquele momento, percebeu o quanto sentiria sua falta. Era tarde, pensou ele. Era tarde para ele descobrir o quanto gostava dela, o quanto precisava dela. Nunca percebeu, pois ela nunca deixou de estar ao seu lado, em qualquer momento. Retirou de seu pescoço, uma corrente fina  de prata. Deu a ela. Ela disse que não queria, as lembranças já bastavam. Ele insistiu, e ela a colocou em duas voltas, em seu pulso. Então, num súbito desejo de terminar logo com aquilo, afastou-se. Sorriu pra ele, um sorriso tristemente bonito. Lucas agora estava sério, olhando para ela, arrependo-se do tempo que perdera, mas agora era tarde, forçou um sorriso, que não era nada parecido com o seu. Aquele sorriso largo, alegre, encantador que ela se apaixonara… Ela se afastava, com passos lentos, olhando a corrente em seu pulso, como se esperasse que ele a alcançasse, mas sabia que ele não podia mesmo se quisesse. Ele permaneceu ali, parado, esperando a hora de partir. Pessoas ao redor que viam a cena, pensavam consigo que eram apenas um casal de namorados que se despediam, não sabiam nada da vida e viam novela demais. Mas não viam que parado ali, estava alguém que acabara de descobrir que amava alguém que o amava muito mais que a si mesma, e a via desaparecer por entre passagens e pessoas apressadas. A descoberta viera tarde demais. Talvez se encontrassem um dia. Talvez não. Agora estava nas mãos sórdidas do destino, já que quando estavam em suas mãos, não soubera cultivar.

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Qualquer sentimento um pouco mais forte que o habitual, dizem ser amor. O ‘eu te amo’ perdeu o sentindo de vez. Quando se ama, se espera o máximo. E o máximo vem, mas você continua pensando ser o ínfimo da boa vontade, sem pensar que amar é aceitar, acolher as contestações. Mínimo de um, pode ser o máximo do outro. E vivendo esperando, esqueces que amar não é esperar. É viver, é sentir, é aproveitar enquanto ainda se há amor mantendo os alicerces firmes. E nessa espera, o mundo gira e acaba que alguém procura um sentido e só vê insatisfação, cobranças, e amor? O amor fica esquecido em um canto qualquer. E então, as bases estremecem, e cada um segue em um caminho oposto, após ou antes mesmo de tudo desabar, apenas por precaução, por medo. E então vem a nostalgia, e o amor então aparece, e faz padecer, porque agora há a frustração ainda maior de o ter desperdiçado enquanto podia-se ser feliz com ele. E é por isso que dizem que amar, dói. Somos nós, que ainda não aprendemos a amar.

E o sono que não vinha. E as memórias que não conseguia afastar. Pensamentos, imprecisão, tentativas frustradas de encontrar respostas. E a hora vai passando. Logo o sol ia aparecer. É só mais uma noite em claro. Foi até a cozinha, bebeu meio copo de água, procurou um filme qualquer na TV, mas nada prendia sua atenção. Era fraca demais pra controlar seus pensamentos, e isso a deixava frustrada, consigo mesmo. Voltou pra cama, decidida a esvaziar a cabeça e finalmente dormir. Talvez música a distraísse. Colocou os fones no ouvido, mas cada acorde a fazia lembrar daquilo que ela estava tentando inutilmente se livrar, e logo os retirou. Então, desistiu. Deixou que tudo viesse, talvez assim, encontrasse alguma resposta, alguma saída de emergência.Então viu cenas, como em um filme. Fazia falta. Sentiu saudade, e cada vez, cingia mais. Sabia que jamais viveriam momentos como aqueles. Claro que nem todos eram ‘boas recordações’, mas que fosse assim. Faziam parte dela, mesmo as que deixaram cicatrizes, sentia falta de tudo. O tudo a fez ser como é agora. Não chorou, como pensou que faria. E isso a fez pensar que talvez estivesse ficando um pouco menos fraca emocionalmente, e ela sabia por quê. Quis sair e andar por aí, ver o sol nascer de outro lugar que não fosse aquele quarto. Mas ficou ali, entre os lençóis, até olhar pela janela e ver que o sol já estava aparecendo, junto com o sono. Não soube a hora exata que pegou no sono, mas os sonhos não a deixaram esquecer do motivo da insônia, nem nunca deixariam, nem mesmo quando adormecia.

Melissa estava ali, parada, na mesma praça de sempre, olhando para o nada pensando em tudo. Pensava em quanto tempo havia desperdiçado, em quantas lágrimas deixara borrar-lhe os olhos, em quantas pessoas haviam chegado e partido, em quantos pedaços vários sonhos e planos foram estilhaçados, e como sua vida iria mudar, e se iria suportar tantas mudanças assim, e em “tudo que deixou pra trás, as cartas em cima da mesa”. Então, foi despertada daquele devaneio, por uma mão em seus cabelos que esvoaçavam livres naquele vento de fim de primavera. Ouviu aquela voz, conhecida e confortante dizendo lhe, que aquela imagem merecia uma foto, e sorriu. O abraço veio logo em seguida, e ele se sentou ao lado dela. O silêncio fazia companhia aos dois. Até ele quebrar com aquela formalidade toda, e perguntar a ela, em que ela pensava tanto, e a ouvir responder ‘em tudo’. Lucas se perguntou, se deveria questionar o tudo, mas temia a resposta.Talvez ela tivesse dúvidas sobre o ‘nós’ que  haviam criado. Talvez entre os dois nunca fosse existir nada realmente estável. Ao mesmo tempo, Melissa levantou os olhos e olhou para Lucas, esperando que ele dissesse algo, e reparou o quanto seus olhos eram bonitos, mas o silêncio novamente prevaleceu. E eles permaneceram ali, por algum tempo, até Melissa dizer que já estava tarde, e precisavam ir pra casa. Levantaram-se então, despediram-se com outro abraço, dessa vez mais longo e próximo, seguida por um leve encostar de lábios, onde Lucas disse, baixinho ‘eu gosto de você’, e ouviu um ‘eu também’ sussurrado como resposta, e então caminharam em direções opostas. Melissa então pensou, mais uma vez, no quanto tempo perdiam na vida, e como ela queria aquele abraço, pro resto da vida.