-Moleque ridículo.
Respondi, virando as costas. As palavras saíram atiradas, letras que se fossem navalhas, atravessar-lhe-iam as vísceras arracando-lhe a vida, que honestamente, para mim, era enojante.Sabia que a raiva demoraria a cessar, e ele também sabia disso, ao não tentar impedir que eu batesse a porta ao sair.
Caminhei por horas, as lágrimas escorriam incessantemente pela minha face. Não eram de tristeza, não eram de frustração ou decepção. Eram de raiva.O ódio que me consumia naquele momento, cegava meus olhos, bloqueava as lembranças boas que talvez me ajudariam a diminuir a intensidade do rancor que havia me acertado em cheio.
Estava machucada. Por dentro. As feridas gritavam abertas ao relento, queimavam.
Já estava escurecendo, e meu celular tocou pela primeira vez após algumas horas, que eu não tenho idéia de quantas foram. Aquele maldito nome na tela, aquela maldita música que me fazia ter certeza de quem estava chamando. Atirei o celular ao longe, sabendo que me arrependeria depois, e saí correndo pra pegar. Estava em pedaços, assim como eu. Permaneci ali, imóvel, inteiramente despedaçada, como se esperasse que um milagre igual aos  de romances clichês viesse me salvar.
“Sabia que você estaria aqui. Levanta daí, amor.”
-tremi ao ouvir a voz aveludada, apreensiva, de Lucas.
“Some. Me deixa”, respondi, com a voz mais dura que consegui simular.
“Para. Vamos ver se você consegue entender. Eu vou embora, isso é fato…”
Essa era a fatídica frase que havia começado a discussão mais calorosa que tivemos, em 4 anos que estivemos supostamente juntos.
“Pois vá. Vá, como todas as vezes. Arrume outra namorada, seja feliz por 15 dias. Aproveite as festas que ela vai gostar de ir, beba, repita o semestre na faculdade. Volte frustrado e me procure. Só não pense que dessa vez eu estarei aqui, pois estou indo também.” As palavras saíam falhadas, entre a respiração acelerada pelo ritmo cardíaco extremamente acelerado também, eu quase podia sentir meu coração estourando meu peito. Os olhos deles me encaravam, sem paciência, sua expressão era de profundo desapontamento, e eu não entendia a razão. Afinal, ele que prometera há dois meses atras, que ficaria aqui dessa vez. Ele me dera sua palavra.
“Será que eu posso falar, ou você vai continuar me acusando, me ofendendo, achando-se a dona da verdade?”
Senti vontade de enforca-lo, ao responder, com todo sacrifício, que ele tinha 5 minutos até eu ir pra casa e botar fogo em tudo que me lembrava ele, e nele também, se ele tentasse me impedir.
Ele suspirou, como se buscasse forças em alguma coisa. Segurou minhas mãos, fechou os olhos por alguns segundos,enquanto esperava que minhas mãos parassem de tremer,e finalmente disse : “Vem comigo, Melissa.”

(…)