A confusão era visível em cada parte do meu corpo. Mesmo que ele fosse, conservaria-se aqui em mim de uma forma ou de outra, mas EU estar junto com ele, era algo totalmente fora de cogitação.Era só ele atravessar o portão de casa, que ele já esquecia-se de tudo. Sempre fora fácil assim pra ele, o que tornava tudo mais difícil pra mim. Eu só podia ter entendido errado. Ele só podia estar arrependido por ter quebrado sua promessa novamente, e por estar me vendo tomada pelo desespero, se sentindo culpado. E diga-se de passagem, com toda razão, a culpa era mesmo toda dele.
-Você enlouqueceu? -as palavras saíram impelidas, sem raciocinar, sem eu querer dizê-las.
-Não. Colabore, tente ao menos uma vez na vida não ser tão impulsiva. Ouça-me primeiro.
Impulsiva. Im-pul-si-va. As sílabas ecoavam na minha cabeça. Eu, que pensava mil vezes antes de falar. Que analisava todas as possibilidades com medo de errar e colocar tudo a perder. Tudo para não provocar cizânias, por mínima que fosse. Tudo pra não ser novamente a culpada, e ouvi-lo dizer que eu era a razão de ficarmos separados. Ou minhas tentativas eram falhas, ou ele não sabia o sentido dessa palavra. Pedi que ele prosseguisse a falar, tentado relevar o fato de ter sido chamada de algo que eu realmente me obrigava a não ser.
-Veja bem. É diferente, não sei como explicar. Eu te amo, e eu sei disso agora. -ele disse, medindo as palavras, como se explicasse a uma criança que seu cãozinho de estimação havia sido atropelado- e não quero te deixar.
-Você quer que eu deixe minha vida, e vá embora com você? –a rispidez se fazia visível até nos intervalos entre uma palavra e outra.
Não quero que a deixe, quero que a viva comigo.Case comigo se quiser cumprir os bons costumes -ele disse, com aquele sorriso que me fazia sonhar acordada.
Havia algo errado. Papéis invertidos. Eu deveria estar pedindo que ele ficasse, e ele deveria estar dizendo que não poderia. Havia algo muito errado. Ou certo demais.
-Lucas, eu acabei de fazer 18 anos, e você mal passou dos 19.
-Eu não me vejo com outra pessoa além de você.
-Nem eu, mas…
-Mas o que Melissa?
-Eu não vou. Talvez seja melhor se seguíssemos nossas vidas separados, mesmo…
Eu estava terminando com ele. O que estava acontecendo? Minha voz estava firme, não estava falhada e perdida entre soluços. Meus pés não sentiam vontade de correr longe o bastane pra esquecer o caminho de volta.Isso era totalmente inimaginável. Encontrei os olhos dele, enquanto ele passava a mão pelo meu cabelo, colocando uma mecha que estava caída em meu rosto, atrás de minha orelha. Seu olhar estava confuso, mas havia tristeza ali, eu podia sentir.
-Depois de tudo que passamos, claro que você não confiaria em mim para tanto.
-É, acho que você está certo.
-Vou recuperar o que eu perdi.
-Talvez não seja mais possível.
-Você me ama?
-Sim.

-Eu só preciso disso para não desistir de você. Venha, vou te levar pra casa.
As primeiras gotas de chuva caíram sobre nós, ele retirou seu moletom e colocou sobre mim, e abraçados caminhamos pela chuva, em silêncio. Dali pra frente, era viver. E esperar.
(…)