Melissa não estava feliz. Embora soubesse que tudo estava como ela imaginara que fosse. Sentia-se presa a um vazio terrível. Como se faltasse algo. Mas, em casa, no trabalho, nos estudos, tudo estava bem. Com Lucas, também, embora sentisse um certo distanciamento, e frieza em suas palavras, mas não prestou muita atenção. Talvez fosse apenas problemas no trabalho. Ela tentava decidir entre uma cidade e outra para fazer faculdade. Já tinha em mente o que queria, mas precisava de planos reservas. Estava entretida, calculando distâncias e custos e probabilidades, quando o celular tocou. Pela música escolhida como toque, já sabia quem era. Ele não havia ido para a aula, novamente. Isso a preocupava, mas como ele mesmo dizia, ela não tinha que se preocupar com isso.
-Melissa, preciso falar com você. Estou em frente a sua casa, vamos sair para caminhar um pouco. A lua está bonita.
Ela sentiu suas pernas amolecerem. Da última vez que ele disse sobre a lua, disse que aquela seria uma forma de saber que não ficariam tão distantes assim, afinal, a lua fazia parte do mesmo céu. Do nosso céu. E então, foi-se; e quase perdeu o caminho de volta, mas voltou. Talvez dessa vez, não encontrasse mais seu caminho…Era o que ela temia. Balbuciou um ‘estou indo’ e saiu.
Ele estava ali, com o olhar parado, distante. Ela sentiu um nó na garganta. Sabia o que aconteceria. Será que poderia pular o tempo, uns cinco ou seis meses, até a recuperação completa? Ou ela teria que passar por toda angústia da espera novamente? Uma espera que talvez nem acabasse…
-Lucas?
-Não vi que você já estava aí. Vê, que lua bonita. E solitária.
-Ela tem as estrelas. Em noites sem estrelas, ela não fica tão bonita…
-Tem razão… Venha aqui.
Ele passou os braços pelos ombros dela, e beijou-lhe a testa. Por dentro, ela queria correr, pra longe, longe bastante para não ter que ouvir-lo dizer que são melhores separados. Mas não ouviu nada. Caminharam por um tempo, em silêncio, até chegarem na praça onde se viram pela primeira vez. Havia mudado muito. Ambos eram pré-adolescentes que mal sabiam o que era amor, mas diziam se amar. Pra sempre. Há quatro anos atrás, acreditavam que isso era possível. Sentaram-se sobre o mesmo banco, onde o primeiro beijo, desajeitado e envergonhado aconteceu. Podia se ver a redoma nostálgica que os segregava do resto do mundo naquele momento. Ele segurou-lhe a mão, e a abraçou. Ela sentia-se completamente segura envolvida naquele abraço. Quase esqueceu-se que nos  próximos minutos, estaria em um provável abismo de recordações, e só recordações. Ele disse seu nome num sussurro quase inaudível, como se procurasse forças em algum lugar, para poder emitir qualquer som que fosse. Mas ela ouviu. E sentiu novamente uma guerra iniciando-se em seu interior. Guerra a qual, já estava perdida. Mas por amor as causas perdidas, não perdeu o último fio de esperança, fraco, quase invísivel, mas vivo.
-Melissa… eu não sei. Eu não quero te fazer mal. Mas, você tem sonhos maiores que eu. Eu me sinto sufocado por eles, como se não fizesse parte…
-Você faz parte da minha vida, automaticamente faz parte dos meus sonhos… É meio lógico isso.
-Não se trata de lógica, nem tudo na vida se resolve com lógica. Eu já lhe disse isso.
-Vá direto ao ponto.
-Conheci uma garota.
-O quê? Lucas, você só pode estar brincando.
-Não estou. Ela está na minha sala, e ultimamente estamos bem próximos.
-E você quer terminar comigo, com essa desculpa idiota que não cabe em meus sonhos. É por ela, não por mim.
-Sim. Você está certa.
-Eu…Eu vou embora. Passe em casa amanhã para pegar suas coisas.
-Eu te acompanho, está escuro.
-A lua não continua brilhando, mesmo sem estrelas por perto.
-Não com a mesma beleza.
-Adeus. Quero ir sozinha.
-Adeus, desculpa.
Ela seguiu. A dor que sentia não era comparavél a nada. Dos olhos, brotavam lágrimas grossas, que formavam sulcos por sua face. Sentia vontade de gritar. De correr. Fugir. Sumir. Arrancar a força tudo que lembrava ele. Ao chegar em casa, rasgou cartas e fotos. Apagou o número, o e-mail, e toda forma de contato.Escolheu a cidade mais longe para ir morar. Jogou-se na cama, odiando-se por não consiguir jogar fora o principal: o que sentia por ele.
Ele, ainda naquela praça, não se permitiu chorar. Era o melhor para ela. Ele não conseguiria alcança-la em seus planos. Sabia que desde que nascera, criara raízes e não queria que ela pagasse o preço de desistir de seus sonhos, por ele. Pensou em várias alternativas, mas nenhuma a convenceria. A saída foi inventar alguém. Sabia que abriria cicatrizes que deixariam marcas, mas era o melhor para ela. Chutou pedras pelo caminho, parou no primeiro botequim, e bebeu até amanhecer. Foi para casa, com o sol nascendo, e ao passar em frente a casa de Melissa, a viu saindo para o colégio. Olhos inchados, expressão melancólica.
Era o melhor. Repetiu para si mesmo. Era o melhor para ela.
Para ele, era a maior prova de que a amava. Para ela, era a maior prova de que tudo que viveram, não passou de mentiras.
Alguém precisava dizer. Colocar um ponto final de vez na história. Acabar de vez com as reticências. A história foi mal escrita desde o começo, mas a esperança sempre nos fez tentar acreditar que poderíamos concertar, ou aceitar a história em linhas tortuosas. Mas não pudemos. Entre retratos não tirados, dias não vividos, recordações tristemente bonitas dos vividos, manhãs, tardes e noites planejadas, sonhadas, imaginadas detalhadamente, nos perdemos. Eu te vi sorrir e não soube porque. E aquele sorriso, inspirando vitória me mostrou, o jogo estava perdido. E isso que fomos o tempo todo. Jogadores. Corações empedrados pela vida, que por um pequeno momento, amoleceram. E eis o empate. Mas, foi questão de tempo até você perceber o empate e querer ‘vencer’.Ou melhor, ditar o final, sair vitorioso. E venceu. E eis seu prêmio, não precisa dizer ‘adeus’ , eu já estou dizendo.

“Tentando ser o que eu não era mais
Eu me vi escondido em um mundo que você criou
E nunca mais voltou pra me libertar
E eu que não sei aonde chegar
Já caminhei tanto pra encontrar
E eu que não sei como te falar
Já escrevi tanto pra cantar
Mas se você não quiser ouvir
As canções já não me dizem mais nada”

ps: o outro post sumiu, bugs do WordPress.

Anúncios