Deitada sobre lençóis finos, claros e frescos, via o céu pela janela. Mas, divagava muito além do azul infinito manchado de branco. Pensava em como cheguei até ali. Não exatamente ali, em minha cama, no meu quarto, deitada devaneando…mas, em como ‘eu’ era ‘eu’. E quantos pedaços de mim, havia deixado pelo caminho, e ainda estava ali, não inteira, mas sustentando-me sobre os pedaços que restavam.Acreditando, que estes ‘pedaços’ eram possivéis de se regenerar até que eu pudesse me sentir completa denovo. E se algo tivesse sido arrancado tão vorazmente que jamais se regenaria? Bem, viveria sem. E ele, era algo que eu pretendia viver sem, mesmo sentindo o vazio gritante que havia ali, dentro de mim. A cada dia, o pedaço de mim pertecente a ele, se tornava maior. Dia a dia, até que percebi que não tardaria e eu não me pertenceria mais, e tive medo. Fugi. Corri até ficar longe o bastante para não ser tocada. Mas, o que de mim ele tinha com ele, lá ficou. Então, pela primeira vez em muito tempo, fui forte a ponto de brigar com o destino. De impor minha vontade. Não quero, não posso, não preciso. ‘Vá, e cuide bem da parte de mim que está com você, caso queira devolver um dia.’ E ele foi. Não como eu esperava que fosse, jogando de volta tudo de mim que havia nele. Mas, foi assim, aos trancos, quase não indo. E não foi inteiramente. Continua perto o bastante para eu sentir, mas não para eu tocar. Para não me deixar esquecer. E eis que a resposta para o que eu sou, está aí. Na teimosia dele, em não ir. No pedaço faltante, preenchido por outro : saudade. E eis o que sou, aqui, deitada vendo as nuvens dançando: um poço de saudade.

 

 

“Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar
fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo
Queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir”